Recepção

Sobre Modalidades de Recebimento de Analisantes na ACF

Sonia Maria Bley¹

INTRODUÇÃO

Na constante busca de referenciar nosso fazer em psicanálise, debruçamo-nos nos percalços, ou seja, naquilo que precisa de uma construção-reconstrução.

Um desses momentos é o que denominamos RECEPÇÃO. Esse trabalho implica que aquele que está vindo à instituição Associação Clínica Freudiana, em busca de atendimento, passe por esse momento designado como recepção.

Anterior ao trabalho de recepção está a importância dada na ACF a qualquer busca de tratamento psicanalítico que venha para suas dependências, porém portando o nome de algum dos associados. Ou seja, o trabalho de recepção não se faz necessário caso alguém venha já encaminhado a um nome específico. Trata-se apenas, nesses casos de fazer chegar e/ou de não atrapalhar para que esse pedido chegue ao colega nomeado.

Todo o trabalho justamente está em manter o princípio básico de que um analisante sempre será analisante por relação ao nome de um analista especificamente, jamais o será de uma instituição.

O cuidado de não considerar o trabalho de recepção como entrevistas iniciais de uma análise tem, também, por aí sustentação, bem como não haver a passagem de pacientes quando de saída de algum associado, a não ser que esse o faça a outros nomes. Como os analisantes não são da instituição, tendem a ir onde seu analista atenda, seja na instituição, no seu consultório em outras cidades, inclusive.

Retomando o escrito anteriormente, nomeamos como Recepção a situação em que a pessoa se dirige ao nome ACF, cabendo aí sim, um trabalho de passagem de um pedido difuso a um nome específico.

I – CONTEXTUALIZAÇÃO

O que concebemos como Recepção requer retomadas, de tempos em tempos, no grupo de discussões. Por ser um trabalho que envolve toda a seriedade e compromisso de quem dele participa, continua a nos apresentar interrogações sempre pertinentes. No entanto, alguns princípios têm sido responsáveis pela manutenção dessa importante prática nessa instituição, nunca delegada a procedimentos administrativos, mas antes, aprimorada durante anos, com o avanço clínico de cada participante.

Desde os primórdios deste fazer esteve implicado trabalharmos de forma a não termos listas nem de recebedores de analisantes, nem lista de espera para quem busca ser atendido.

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¹ Presidente da ACF

A originalidade desta proposta se deve a que seu constructo se baseia na experiência de um fazer, enquanto clínico, no contexto específico dessa instituição há mais de 17 anos, com pressupostos da escuta freudiana e lacaniana, a partir da leitura que fazemos desses textos.

As dificuldades, bem como as peculiaridades, apresentam-se ao propormos uma escuta diferenciada daquela operada por fontes indicadoras de tratamento externas à instituição, as quais veiculam pedidos os mais diversos. A complexidade também se deve ao intrincado labor interno que implica pautar-se, na medida do possível, nas relações de trabalho entre os pares. E, nesse sentido, abster-se de eleger a si próprio em qualquer coisa relativa a um encaminhamento, requer do recepcionista o partilhar de um sistema de trocas em que algo sempre se perde no âmbito narcísico. Apostar na transferência que se tem com o trabalho dos outros para apostar no trabalho da transferência, requer trabalhar-se a si próprio, quando da realização desse importante labor. Isso corrobora a importância a ser dada à complexização dos termos Arbeit e Übertragung, no texto freudiano, no qual as derivações dos mesmos portam detalhes importantes e nuanças do que esteja em questão a cada passo do trabalho analítico.

Por ser o momento primeiro de uma chegada e operar de fora daquele trabalho clínico de entrevistas de início de tratamento com o próprio analista, trabalho esse que constrói a demanda pela escuta oferecida pelo mesmo, lida muitas vezes com o desarranjar de pré-concepções veiculadas socialmente. Como por exemplo, com o imaginário de que a busca de um tratamento em uma instituição possui algum tipo de tutela e/ou barateamento. A organização social, em geral, propõe como tipos de instituições apenas as que polarizam o público x privado, naquilo que possibilita pensar em subsidiado/gratuito x particular.

Desmanchar essa imagem de que é possível haver uma análise “barateando”, ou havendo “desconto” por convênios é sempre difícil, tendo em vista o que Freud refere como a “hipocrisia” com a qual normalmente se lida no cotidiano, com as questões de dinheiro, assim como/com as de ordem sexual. Como então, topar com outro pressuposto freudiano de que o tratamento deve ser caro e mais, a cada um?¹

Essas são algumas das questões atinentes a essa função nada fácil.

II – RECEBER?²

Referíamo-nos à pessoa que vem à instituição, então, como aquela que “passa por uma recepção” ou é “recebida”.

Ora, nossa língua oferece vários sentidos ao verbo receber dentre os quais o de recepcionar, verbo intransitivo, cuja substantivação é recepção (ato ou efeito de receber), na acepção de acolher pessoas. Em alguns tipos de empresa esse substantivo é aderente a um lugar físico, que coincide, quase sempre, com a frente, a entrada.

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¹ Ver texto: Sobre o Pagamento em Clínica – Sonia Maria Bley Home Page: www.associacaoclinicafreudiana.com.br

² Texto apresentado no Fórum Clínico da ACF de 28/01/2000

Ali será, supostamente, recebida (enquanto, verbo transitivo direto) uma manifestação, um pedido, um recado, um apresentar-se para entrevista e outros. Enfim, algo de uma mediação é feito.

Repassando e retomando nossa história, temos reeditada a frase: “Não se trataria aqui na ACF, do trabalho de um recepcionista”, de uma suposta empresa, como descrita acima, é claro. Tratar-se-ia, ainda menos, de um “trabalho de secretariado”, neste ponto. Lidar-se-ia para além da mediação do distribuir paciente no lugar de correspondência e dar informações. Mas o que implica, então, essa especificidade?

O endereçamento a um nome que escutará o demandante, carrega o peso da desnarcisação implicada, como quando da descoberta, já nos primórdios da Clínica com a Histeria, por parte de Freud, do que viria a ser a Übertragung. Freud inaugurou o ato psicanalítico descobrindo a transferência, sustentando a instauração do übertragen, ou seja, do transferir, traduzir, encarregar, transportar, conduzir de um lado para outro,no processo analítico. É neste, onde ao analista são endereçadas as reedições de conteúdos psíquicos singulares do analisante, estando ele (analista), no lugar de encarregado, sem agarrar a encomenda ou correspondência. Neste endereçamento, trata-se do que está alhures de um suposto endereço único eóico. Portanto, trabalha-se com e na via da transferência, cabendo ao analista conduzi-la.

No entanto, o que acontece se realmente recebemos? Se nesse momento da chamada recepção, de fato, recebemos e ficamos, com o que se supõe ter recebido? Se recebermos amparados pelo primeiro sentido atribuído, pelo dicionário, ao verbete receber (verbo transitivo direto) que é: tomar, aceitar (dádiva)?

É no encalço das perguntas acima que temos outra proposição a retomar: “Em princípio, não se fica com o paciente que vem à Associação para ser recepcionado. Encaminha-se a outro”.

Certamente que o acento dado acima e este verbo ficar, não só diz respeito ao reter a criatura por auto-encaminhamento, mas também, a qualquer fixação a nível da questão trazida, que resulte em algo mortífero ao encaminhamento de um processo analítico. Trabalhar uma passagem é, em vários âmbitos, desfavorecer qualquer colagem.

Em primeira instância, o recepcionista, encontra-se ali, em lugar outro que não o de quem recebeu um pedido em torno de seu nome e, sim, ainda, da instituição. Poder desprender-se de, ele (recepcionista) ser a instituição, faz hiância, hiato. Ao ser enunciado, no entanto, por parte do sujeito que vem, a passagem do recepcionista a analista, é algo que, quando acontece, também precisa ser escutado. Uma vez que colar-se ao enunciado: “de passar a outro”, como regra absoluta, também faz ensurdecer, em relação ao fato de que a situação transferencial que comporta sempre algo de enigma fornece base, em alguns casos, para que o próprio sujeito faça logo, ele mesmo, essa passagem. Isso de nenhum modo nos pode deixar comodamente ancorados em algum porto seguro. Não nos isentamos, portanto, de tocar em possibilidades bastante problemáticas, do tipo:

•  O terapeuta está precisando de algo, no lugar do quê o objeto da necessidade passa a ser o ter paciente, dinheiro ou encomendou a si uma pesquisa específica, para a qual impõe-se que, e nome disso, seja legítimo tomar para si determinado cliente.

•  Outra situação problemática: “simpatizou” com tal e isso determinou o auto encaminhamento.

•  Ou ainda: “o paciente estava muito angustiado” e essa angustia contamina o recepcionista a ponto de num “furor curandi”, querer logo atendê-lo, ou seja, supri-lo de objeto. Isso, para situar algumas dificuldades nas quais sucumbiu-se, em dados momentos, ao longo desses anos de trabalho conjunto.

Além disso, se tivermos o aceno pelo levantamento feito das Recepções, de que uma parcela considerável dos que buscam atendimento aqui, são movidos pela queixa sintetizada: “problemas escolares/aprendizagem” do filho, teríamos outro aspecto a levar em conta. Por exemplo, quando da vinda de alguém, querendo marcar para outrem. Freqüentemente temos aí, no caso de pais e seus filhos, que os primeiros estão com dificuldades quanto a seu lugar junto aos segundos. Uma escuta, mínima que seja, já na recepção, tratará de não sacramentar o sintoma. Tem-se problemas caso a criança, por exemplo, que é quem está manifestando algo mais agudo da conflitiva familiar, seja tomada, cristalizadamente, como objeto a ser tratado. Não caberia a recepção nem ao processo analítico, responder o nível do fenômeno manifestado, do sintoma, da angústia dos pais, por insucesso escolar ou outro da criança, com medidas corretivas, destinadas a consertar ou reeducar.

O sintoma endereça-se a uma espécie de anonimato. Se o escutador substituir a batata-quente que, chegando a um destinatário, queima-lhe as mãos, pelo movimento instigante do desejo a saltar pela falta do sujeito, eis o que pode fazer render análise. Portanto,no recepcionar clinicamente não se trata de ofertar cipó àquele que a seu modo, vislumbra agarrar-se a um; nem jogá-lo de volta na areia movediça.

Podemos insistir perguntando: o que acontecerá na segunda entrevista (primeira com o terapeuta nomeado), quando da vinda de uma situação familiar em dificuldade, caso na recepção se tenha cristalizado a idéia de que tal criança precisa de atendimento e não outros implicados (seus pais, por exemplo)?

Podemos perguntar o contrário: como será, no caso do encaminhamento de uma situação familiar onde a recepção faz um trabalho atento a essa não cristalização no sintoma e o terapeuta simplifica o processo de entrada, passando a atender apenas a criança? Será ela o elo mais fraco de uma cadeia discursiva que precisa ser sempre escutada, preferencialmente, de forma direta, aderindo ao pedido? Seria a criança alguém de quem se supõe seja mais fácil esconder o que se faz clinicamente, de quem se possa esconder de escutar o texto, atrás de brinquedos, por exemplo?

Bem, este assunto, sugiro, seja discutido em outro momento, pois esse aspecto dentre outros, diz respeito a manutenção dos atendimentos. Voltemos à recepção.

Ao mesmo tempo que, de certa forma, a recepção é uma primeira entrevista, não se caracteriza exatamente como tal, uma vez que se abrimos o discurso para além do que bastaria para fazer o devido encaminhamento, já estaremos nos colocando no lugar disponível para escutar e induzirmos a pessoa à saída mais prática: “pode ser contigo mesmo”?, ou seja, há que se atentar para um tempo lógico, que se não trabalhado é bem mais provável que a pessoa diga: “não vou querer contar tudo de novo a outro”. O lugar do corte, do ato analítico, também faz questão na recepção se quisermos levantar apenas um aspecto diferencial do que um secretário de médico ou recepcionista de empresa faria.

Cedo também, para pensarmos do lado do analista, Freud teorizou sobre a abstinência que não pode ter valor, senão por relação ao que for se delineado como transferência, que se dá em relação a um nome específico. Neste sentido, em nossa chamada “Recepção”, o analista há que, também, destituir-se do lugar de escuta enquando tal, em prol da passagem da transferência que ele próprio tem com o trabalho do outro. Nisto estará sempre implicada a aposta, ao confiar a escuta a quem endereça; aposta essa que porta um “não-sei-quê” de encobrimento do que de fato se lhe endereça.

A transferência, (“Übertragung”) motor de trabalho (Arbeit), faz questão no momento de escolher um nome a quem encaminhar pois se trata, de nada menos do que do trabalho da transferência. Freud partiu da contribuição de Ferenczi de que há transferência em todas as relações humanas, para encaminhar a questão da legitimação de, na análise, tratar-se de manifestações de relações recalcadas (Verdrängungen), reeditadas no que nomeou como neurose de transferência. Portanto, baseando-nos apenas nesse início freudiano, não podemos nos tranqüilizar com qualquer “toma-lá e dá-cá”, por considerarmos que algo sempre foge do saber a quem se dirige. O que concerne a qualquer recepcionista, enquanto tal, tem aí lugar lateral no que implica viabilizar que alguém chegue ao trabalho de construção de uma demanda de análise.

Se associados em torno da causa psicanalítica, implica de certa forma, “chover no molhado”, quando retomamos tais questões, também, sabemos que no trabalho atravessam dificuldades que precisam, sempre que possível, serem reconduzidas às discussões e textos. Se nessas instâncias não o fizermos, podemos levá-las a interferir em outros âmbitos, como no encaminhar as recepções solicitadas à porta, ao telefone, e outros, já que consideramos todo o contato com aquele que chega, num primeiro momento, como sendo da ordem do recepcionar.

Que o trabalho de recepcionar continue a funcionar sob a regência de verbo intransitivo, assim como o desejar e não na transitividade direta do verbo receber.