Fórum Clínico na ACF em 29/03/03
Sobre os Pagamentos em Clínica
Sonia Maria Bley
“Somente a morte não custa nada” . (Freud)
“Nada na vida é tão caro quanto a doença e a estupidez” . (Freud)
“Lida-se com as questões de dinheiro com a mesma hipocrisia que com as de ordem sexual” . (Freud)
Começar a pensar uma clínica que interrogue sobre o preço do tratamento, até os honorários do profissional, só é possível a partir da própria análise do analista. Pois,é para além da questão econômica mercadológica, que a psicanálise interroga-se pelo lugar do pagamento na clínica. O pagamento como lugar singularizado, sustenta, eticamente, que os lugares do analista e analisante são assimétricos. O analista buscando responder de onde lhe cabe, conduz o tratamento, onde o cobrar remete também a singularidade de uma interpretação. Na pontualidade do que se chama ato analítico, não tem como haver relação de proporcionalidade entre o que o analista cobra e pelo quê o analisante paga. Pode-se pensar com Lacan: “não há relação sexual”. Neste sentido, a psicanálise está fora de todo preço. Isso torna-se suficiente para retomarmos a singularidade clínica do pagar e, não para justificar outras saídas para a questão, que podem estar figurabilizadas na filautropia ou na “naturalidade” capitalista de interpretação do que implica cobrar/pagar, ou seja, pela lógica de consumo de bens.
Do lado do analisante, Freud é claro: o pagamento deve representar esforço; poder-se ia dizer, um certo sacrifício. Ou mesmo, em suas palavras, “o tratamento deve ser caro” ( teuer), o que está, neste aspecto, desligado de qualquer consideração referida ao outro pólo da relação – ao analista – na cotação, por exemplo, do quanto vale seu tempo, a dedicação, a sua formação, etc.
O dinheiro, esse papel que, nas relações em geral, está entre os termos de um intercâmbio, permite relacionar as coisas mais díspares entre si, por instituir entre elas um valor, um plus. É desse plus que se tende a não querer saber nada e, mesmo saber bem pouco. O dinheiro sustenta, assim, como conseqüência, uma convenção que é a do silêncio, na suposição de que se paga por um serviço, uma atenção, um saber, um amor, uma amizade, um bem, e aí se está na transferência. A Transferência faz de uma neurose – neurose de transferência – mas também amor de resistência. E a transferência como resistência pode dizer o silêncio e silenciar o dizer, mais ou menos assim: “se é por amor não é pecado e se não é pecado não se confessa”. E o saber popular metaforiza isso também assim: “o amor é cego”. Na psicanálise freudiana é surdo, portanto.
A cobrança, do lado do analista é, assim, correlatada, em ato, da regra de abstinência, porque também em nossa língua se diz: “se é por dinheiro, não é por amor”. Cabe então, ao analista pagar com palavras; cobrar, neste caso, fazendo incidência de interpretação. Pois não basta que o paciente entregue dinheiro na ritualização do pagamento ao analista, ele também paga com palavras. No que é preciso que o analista cobre ao analisante a partir do lugar narcísico em que se recusa a pagar.
O que aponta Marx, inaugurando o sintoma como denúncia de que o trabalho vira mercadoria e esta assume lugar de fetiche, serve para pensarmos como se dão as trocas a nível de compra e venda de um trabalho, no mundo do capital.
Já o trabalho de análise , cujo paradigma é o trabalho do sonho “Durcharbeitung” movimenta e substitui o que se descobre na neurose como uma relação de produção entre o Sujeito e o Outro que seu fantasma imagina. A psicanálise é uma intervenção nessa relação de produção, onde o pagamento em dinheiro torna-se o mais barato, se comparado com o amor e a neurose.
Nos trâmites da economia libidinal, veiculada pelo lugar de falante, as questões de dinheiro ganham expressões de certa equivalência para cada um ao desconhecimento da satisfação sexual no sofrimento do sintoma. O sintoma que articula pulsão e inconsciente faz do Sujeito um trabalhador cuja tarefa é produzir para satisfazer um Outro suposto. Nas chamadas satisfações substitutivas, o gozo, o plus, que é primariamente masoquista, sustenta-se na repetição para além do prazer. O fantasma regula a magnitude do trabalho sintomático necessário para manter-se o nível do gozo exigido. Esse esforço deixa como saldo um saber inconsciente e como resto aquele mais gozar tomado como objeto, sendo o objeto aquele muito distante do natural. Esse plus de gozar resultante do sintoma se acumula como perda. Perda que o Sujeito vive como ganho narcísico e, precisamente, aí é quando ele sofre por ela (a perda) pois seu ganho permanece como secundário.
Se o capital é tratado de modo semelhante ao que Freud falava da libido (como uma força quantitativamente variável), pode-se pensá-lo como lugar de um outro cálculo que não o de mercado, mais da ordem do calculável mesmo, do que do contábil. O peso, então, estará nas relações que esse valor põe em jogo na transferência. Nisso, como por exemplo clássico, podemos ter os cálculos operacionalizados, a partir de equações singulares, do Homem dos Ratos.
O psicanalista reduzido ao campo do capital, onde o paciente vincula e veicula globalmente sua demanda, tomaria o pagamento da análise como intercâmbio; uma remuneração por serviço prestado; a compra e venda de algo, enfim uma significação. Obtê-la pagando, permitiria ao analisante a ilusão de ter com ela um gozo realizado. Ora, o pagamento é um limitador do gozo, se reatualiza o laço social fundado na renúncia. O pagamento financiando essa renúncia de gozo, por que este é primariamente incestuoso, avaliza: Goza, mas só da palavra, onde se veicula o desejo. Ao analista o dinheiro é igualmente, limitador de gozo, se oriundo do seu trabalho, se ele mesmo se sustenta como provedor de seu sustento, isso é, também, como desejante. E, talvez nesse cálculo, Freud continue não falando levianamente, quando diz que o psicanalista, de um lado, não ganhará como outros especialistas médicos, por mais que trabalhe; de outro, deve viver com dignidade.
Uma coisa é gozar do dinheiro do analisante e outra coisa é gozar do analisante como portador ou não de dinheiro. Esta diferença pode produzir estragos na escuta.
O falo como referência, situa duas razões quando de um pagamento: uma entre quem paga e o capital e outra entre o capital e quem cobra. Comparando-as obtemos uma proporção referida ao capital como UNO. Esse UNO é algo buscado incessantemente nos processos inflacionários.
Esse UNO é tentado na neurose na satisfação de um outro suposto, ou seja, o pai ideal. Frente a impossibilidade do ideal - do pai ideal -, pois esse nunca realiza ou materializa, temos duas posições na neurose. Na posição obsessiva, que limita seus atos, suas realizações, para manter um pai imaginariamente não castrado. E, na posição histérica que acusa toda referência paterna de insuficiência para continuar buscando a ilusão de produzir o pai ideal. As duas posições, à custa de um sacrifício sintomático, impedem o reconhecimento de que o pai já está realizado nos próprios significantes, esses que organizam os lugares nos laços discursivos, ou seja, o lugar na psicosexualidade que sustentamos. A função paterna está na transmissão do legado cultural da linguagem. Mas essa herança não se transmite diretamente ou dentro só da ordem simbólica. Ela se orienta pela via da dívida, ou seja, do não dito que também se intercambia. Quando herdamos, orientamo-nos não na referência aquilo que positivamente recebemos, mas em relação ao que não está realizado dentro do que recebemos. A dívida não se coloca só em relação ao filho, mas também na posição de pai. Somente há herança se a posição paterna transmite uma falta ( que opera como dívida). Esse paradigma freudiano perpassa as linhas e entrelinhas de sua obra, pois em relação ao desejo, para Freud, o pai está sempre na posição do engano. Ele engana sobre o desejo, o que permite ao filho desejar, tentar produzir no campo cultural, ou seja correr atrás da dívida .
A dívida, se trabalhada na análise, mostra que o gasto aí tem aspecto de fundo perdido e não de acumulação.
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