Texto lido por ocasião da comemoração do 18° Aniversário da ACF.

Sonia Maria Bley

Para comemorarmos os 18 anos de existência desta instituição temos, de um lado, consistentes motivos. De outro, portamos compromissos e desafios de tão ou maior envergadura que aqueles que conseguimos realizar. Passamos por muitos momentos em que o desafio se impunha era criar condições de possibilidade para o trabalho. Isso implica sempre, também um labor, que sabemos, em última instância, não se tratar de outro que não de: trabalho psíquico. Na ativação laboral, na batalha contra um dia-a-dia impertinentemente soterrador e demolidor do que verdadeiramente interessa, figurabilizado, facilmente em nosso país, nas demolições, seja no; abandono de pessoas e propósitos; seja destruição de instituições, trabalhos e outros, não fazemos mais do que ressituar, essa atividade enquanto trabalho recriado.

A psicanálise fala de declínio (Untergang) que aqui no Brasil se insistiu em chamar de dissolução. Ora, Freud de arrancada criticou a idéia de que “sonhos são espumas” (‘Träume Sind Schäume” ). A psicanálise fala de construção/reconstrução, onde teima-se, muitas vezes, num desviar de olhos (Ablehnung) ou no propósito da destruição. Fala-se de resto o que enquanto tal é sempre matéria-prima importante para prosseguir, porque não afeito ao desperdício. Se retomamos as coisas por aí, não há receituário, daquilo de onde o trabalho nos fisga. Trata-se de se mexer. Nesse sentido, a ACF está de parabéns por empreender esforços pela psicanálise há mais de 18 anos.

Ir contra a maré individualista predominante, continua cada vez mais a colocar questões a um trabalhar que implica ao menos tocar em algum ponto em que se possa associar mais trabalho. Numa sociedade que nos impõe que o trabalho passe por um viés muito mais de trabalhar contra e não com os outros, encontramos, talvez, um de nossos maiores desafios vindouros.

Na formação de psicanalistas está implicada uma entrada num âmbito de trocas, onde o motor do dom é a perda. Sem essa consistência simbólica, o motor não.funciona, empaca na pobreza da eterna espera do lucro. Aí fica algo encruado, a espera de primeiro receber para depois dar.

A revigoração e valorização do trabalho regional é o que pode ter algum valor numa participação em trocas mais globais, uma vez que, para um certo contraponto a uma globalização universalizante, engolfadora, só temos, novamente, que recolocar a diferença; uma criatividade específica não menos implicada com princípios freudianos. Desses não se pode abrir mão, sob pena de ecletismo desimplicado e mesmo de repetição de idéias fora do lugar, que atrapalha tanto numa apropriação de princípios, como no valorizar da criação da particularidade de uma clínica que possa dizer de uma experiência singular.

Os significantes que compõem o nome dessa instituição são reiteradamente referenciais do que pauta um espaço de trabalho conjunto. A importante e complexa tarefa de sustentar uma clínica referida pelo texto freudiano é sempre o desafio que se recoloca à maneira do próprio texto de Freud, como por exemplo no seu escrito: “ Uma Dificuldade da Psicanálise”, o qual refere-se ao terceiro golpe narcísico sofrido pelo homem de que “...o eu não é senhor em sua própria casa...” e, como decorrência disso, não é de se espantar da possibilidade de que se acirrem as resistências à psicanálise, pois esse eu retoma sempre a ilusão de seu senhorio. Quanto aos analistas cabe sempre retrabalhar-se em relação as formatações da resistência à psicanálise que não os isentam.

Que no próximos período possamos agregar mais trabalho psicanalítico ao nosso zeloso nome. Agradecemos em nome do conjunto de associados e laboratoristas, ou seja, a cada um em particular a sua colaboração.

São Leopoldo, 22 de Julho de 2006.