ACF 20 anos
Uma Aposta Relançada
Norton Cezar Dal Follo da Rosa Jr. (1)
Não esperem portanto de meu discurso nada de mais subversivo do que não pretender a solução (LACAN, 1970).
Jacques Lacan, na lição do dia 11/02/1970, do Seminário “O avesso da psicanálise”, ao proferir as palavras desta epígrafe, além de situar seus alunos em relação a ética de seu ensino, os confronta com a responsabilidade do analista mediante a fala que lhe é endereçada. Isto, não é sem propósito nos rumos de seu ensino e, tampouco, sem conseqüências, pois para Lacan, o desejo será por excelência o agente subversivo da condição humana.
O potencial subversivo do desejo entra em cena no processo de análise quando o analista se faz semblante enquanto objeto causa de desejo do analisante. Ocorre que para isso se dar é preciso uma certa dimensão de recusa do lado do analista, ou seja, implica a sustentação de um lugar que possa suportar a tentação ao discurso da síntese, tão impregnado e alienado pela consciência dominadora, muitas vezes, legitimada pela ingênua suposição de transmissão de um saber.
Embora Lacan seja muito prudente ao afirmar que “a referência de um discurso é aquilo que ele confessa querer dominar, querer amestrar (o que por sua vez situa qualquer discurso num certo parentesco com o discurso do mestre)”, aponta-nos também que, se o discurso do analista facilmente pode ser fisgado “a escorregar para o discurso da dominação, da mestria”, sua lógica sustenta-se no avesso de toda vontade de dominar.
Lemos aqui uma preciosa contribuição, tanto no que diz respeito ao trabalho do analista na singularidade de cada direção de tratamento, quanto nas possibilidades de aberturas e revitalização das trocas entre os pares, sobretudo no contexto da instituição psicanalítica. Este, em especial, convoca-nos a privilegiar espaços aos quais a invenção possa se enunciar, em detrimento de possíveis satisfações narcísicas, por vezes, ancoradas no gozo do exercício do poder, da hierarquização institucional, ou até mesmo, nos apelos e reivindicações de reconhecimento. Cabe ressaltar que a noção de invenção em Lacan também é subversiva, haja vista sua afirmação que “nenhum ensino pode pretender transmitir o ato analítico”.
Ao abordar um dos textos chaves desse Seminário, o clássico freudiano “Além do princípio do prazer”, Lacan destacou que a compulsão à repetição implica a irrupção do gozo, da pulsão de morte. Neste sentido, o princípio de prazer funciona como um limite ao gozo, como uma espécie de lei que ordenaria o sujeito a gozar o menos possível. Isto o levou a nos mostrar que o psicanalista deve ser sensível em escutar aquilo que no discurso é mais candente, a saber: os significantes que fazem referência ao gozo. Diante disso, parece evidente que a leitura de Freud, possibilitou-lhe compreender que todo discurso, além de pretender certa dominação, evidencia também as formas de gozo do sujeito, pois pelo simples fato de falar, ele toca nisso sem cessar. Portanto, “não há discurso que não seja do gozo”. É neste sentido que Lacan irá dizer que “o saber fala por conta própria – eis o inconsciente”. O saber aqui em questão é o saber não sabido que desconcerta o sujeito. Ocorre que este saber ao se evidenciar, tropeça nos arredores do gozo (2).
Já disse sobre ele o suficiente para que saibam que o gozo é o tonel das Danaides, e que uma vez que ali se entra não se sabe aonde isso vai dar. Começa com as cócegas e termina com a labareda de gasolina. Tudo isso, é, sempre, o gozo (LACAN, 1970, p.68).
Lacan irá ler na teoria freudiana que “não há felicidade a não ser do falo”. Somente ele pode ser feliz, “não o portador do dito cujo”, ou seja, é a partir da interdição do gozo fálico que o desejo poderá se presentificar enquanto falta, pois o objeto a, efeito da castração, recai no sujeito enquanto interdito. Isto nos parece fundamental, justamente porque o acesso à linguagem implicará uma perda, a disjunção entre saber e verdade. O sujeito estará então, categoricamente, dividido entre o que diz e o que sabe do que diz. Portanto, quando Lacan nos fala que a verdade é indissociável dos efeitos de linguagem, demonstra-nos que esta é a condição do inconsciente. Sendo assim, só existe inconsciente porque há linguagem, ou seja, a lógica do funcionamento psíquico, alicerçada no teorema fundamental de Freud: “aquilo que fora recalcado retorna enquanto sintoma” é a evidência de que “o inconsciente é estruturado como linguagem”.
Em contrapartida, ainda que a condição de sujeito, implique minimamente transgredir as leis impostas ao gozo, suportá-las é uma espécie de anteparo face ao sofrimento, posto que ele é sempre transbordante, pois os limites não o contém. Julgamos importante esta breve introdução, simplesmente por estarmos de acordo com a afirmação de Lacan que avançar no laço social implica uma certa perda de gozo. Ao nos defrontarmos com o outro, precisamos estar dispostos também a “perder”. Ora, nos posicionar em relação ao desejo, implica nas possíveis perspectivas de laço com o outro, o que requer suportar a falta neste.
Este princípio, ainda que constituinte, defronta-nos com algo do real da disparidade nas relações de trocas. Isto nos leva a formular algumas questões que acreditamos ser pertinentes no que diz respeito ao contexto institucional, a saber: quais as perspectivas de laços de trabalho entre os colegas? Em que medida, o diálogo que conseguimos estabelecer com o texto de Freud e Lacan, tem contribuído para o avanço da prática psicanalítica? Qual a nossa responsabilidade com o fomento e comprometimento à formação, inclusive de nossos pares? Nestes 20 anos de trabalhos, quais princípios são importantes de serem mantidos? Quais poderiam ser dispensados? Que outros caberiam ser criados?
Bem, prezados Associados, Laboratoristas, Parceiros e todos aqueles que mantêm alguma transferência de trabalho com a Associação Clínica Freudiana, neste momento os convido ao brinde. Sim! Trata-se também de um evento festivo, pois no mês de julho do presente ano, a Associação Clínica Freudiana completou 20 anos de trabalho. Trabalho de contínuo investimento na sustentação de uma prática clínica psicanalítica, mantido fundamentalmente pela ignorância e o respeito ao sofrimento alheio. Entendemos que este acontecimento marca a história da instituição, tanto em relação a cidade de São Leopoldo, quanto aos efeitos de transmissão da práxis psicanalítica no Estado do Rio Grande do Sul.
Temos vários motivos para brindar a manutenção de um trabalho que tem como causa a escuta psicanalítica do sofrimento psíquico. Como podemos apreender com Freud, a situação psicanalítica de tratamento se dá na singularidade transferencial de cada caso, enquanto o trabalho, na situação psicanalítica de interlocução, constitui-se, segundo Lacan, a partir das transferências de trabalho entre os pares na comunidade psicanalítica. Diante disso, é preciso lembrar que esta instituição se mantém mediante os investimentos e interrogações, tanto de seus atuais associados, quanto daqueles que algum dia contribuíram para o andamento desta associação. Sem a dimensão deste real que esboça estes desejos inomináveis ela não seria possível. Isto evidencia que estes 20 anos tornaram-se viáveis a partir da aposta no trabalho do/para e com o outro .
Este é o elemento ordenador que, de alguma forma, nos protege um pouco da nossa responsabilidade com o desamparo que o fazer clínico implica, assim como, de nossas solitárias e tentadoras certezas alienantes. Então, este se legitima como um valor a ser relançado nesta ocasião, a saber: o respeito a singularidade do fazer de cada associado que vincula o seu nome, ao seu tempo, e de acordo com os efeitos de sua formação a esta Associação, quer seja mediante os atendimentos que realiza, a fala que sustenta, o texto escrito que produz, ou até mesmo, as funções e atribuições exercidas.
Outro aspecto que gostaríamos de destacar é o fato de que a Associação Clínica Freudiana situa-se como a clínica mais antiga na cidade de São Leopoldo. Os cidadãos da cidade e arredores lhe endereçam, ininterruptamente, durante vinte anos, pedidos de tratamento. Isto de um lado é um dos retornos gratificantes que a instituição e seus associados recebem face ao reconhecimento de sua inscrição social e, de outro, sinaliza a responsabilidade diante daquilo que pode surgir como questão a partir dessas transferências que se atualizam a cada novo ano.
Ao longo desses anos, testemunhamos uma aposta que é renovada a cada dia quando alguém bate a nossa porta e sustenta o desejo de se escutar face ao mal-estar de seus sintomas. Estes endereçamentos, além de renovarem as apostas dos que aqui trabalham (oxigenando as transferências entre os pares), também dizem respeito a algumas marcas singulares desta instituição na prática de seus associados. Neste momento, saliento apenas três importantes vetores que singularizam isso que chamo de marcas: a lógica que ordena o trabalho de recepção (3), os princípios que fundamentam as formas de se lidar com as questões relativas ao pagamento na clínica (4), o zelo e comprometimento ético com o nome que conduz um tratamento (5), pois instituição não conduz análise de ninguém.
Se de um lado abdicamos da burocratização de uma lista de espera igualitária e justa entre os colegas, de outro optamos em não legislar sobre o impossível acerca do que se deve pagar ao outro, respeitando assim o âmbito da transferência que sustenta a prática clínica de cada colega. Aqui, mais uma vez, o privado e o público se enlaçam, na medida em que o cuidado com a sua própria clínica produzirá efeitos na clínica do outro, ou seja, o ônus e o bônus se fazem presentes a todo o momento a quem se dispõe a trabalhar em associação.
Além dos pontos destacados até o presente, creio ser importante também, resgatarmos um outro aspecto que acreditamos crucial para que hoje estejamos comemorando estes 20 anos . Trata-se de um ato. E como sabemos, os atos têm conseqüências. Estou me referindo ao ato de refundação da “Clínica Freudiana” enquanto “Associação Clínica Freudiana” , realizado no ano 2000. Este se deu pela maturidade e reconhecimento dos avanços nos trabalhos realizados, assim como pelo desejo em acrescentar um significante que, ao preceder a antiga nomeação, de alguma forma possibilitou-nos novas aberturas, sobretudo, no que diz respeito à criação de novos dispositivos para fomentar e testemunhar o trabalho do psicanalista. Cabe lembrar que Lacan, logo no início de seu ensino, destacou a importância sobre a relação do sujeito e do significante, produzindo assim um giro na teoria e prática psicanalítica, tão impregnada de significações face ao desejo de compreensão.
Então, a “Clínica Freudiana” ao se refundar como “Associação Clínica Freudiana”, além de manter a difícil aposta na sustentação do exercício clínico em suas dependências, passou a privilegiar o trabalho em Associação, interrogando-se assim acerca do seu lugar na formação psicanalítica de seus associados. Esta refundação se deu novamente pela aposta de alguns colegas que aqui se encontram. Neste momento, gostaria de nomeá-los: Carlos Rambo, Carmem Franzen e Nilson Locatelli. Além disso, fora legitimada pela reunião de textos nomeados como “Cartas à Refundação”, de autoria de Fernando Hartmann, Sonia Bley e Norton Cezar Dal Follo da Rosa Jr. Hoje, ao atravessarmos quase uma década de trabalho após a refundação, podemos reconhecer a importância desse momento, quer seja pela importante criação do Laboratório de Psicanálise da ACF (6), quer seja pela ampliação dos laços com outras instituições psicanalíticas e profissionais. Esta abertura (7) e criação de novos dispositivos de trocas com outras instituições têm se demonstrado crucial para minimizar os efeitos alienantes e totalitários, nos quais toda e qualquer constituição de grupos facilmente pode incorrer.
Portanto, quando nos propusemos a escrever algumas linhas a partir dos 20 anos da ACF como uma aposta relançada, víamos a importância em reconhecer as nossas heranças e os desdobramentos de nossa história, assim como em interrogar alguns dos desafios que se apresentam ao trabalho do psicanalista, face o imperativo ao gozo e às fragilidades simbólicas na sociedade contemporânea.
Acreditamos que um dos principais desafios do psicanalista continua sendo o de dar mostras de sua prática, ou ainda, posicionar-se a partir dos efeitos de sua própria análise, pois é somente a partir destes que poderá trazer a sua “pequena” parcela de contribuição na história da psicanálise. No Seminário sobre “O ato psicanalítico”, Lacan vai nos dizer que a passagem ao lugar de psicanalista só é passível se sustentar a partir do fim de análise. O ato psicanalítico se dá a partir do advento do sujeito como objeto, pois é a destituição como analisante que o instituirá enquanto analista, caso este suporte ocupar o lugar de objeto causa de desejo para outro.
Notas:
1 - Psicanalista, Presidente da ACF e membro da APPOA.
2 - Lacan ao falar de gozo irá retomar os primórdios do processo de constituição psíquica, desde a relação da mãe com o bebê, ou seja, como ela se apresenta para a “sua” criança enquanto objeto de gozo. Vejamos: “A mulher permite ao gozo ousar a mascara da repetição. Ela aqui se apresenta como o que é, como instituição da mascarada. Ela ensina seu pequeno a se exibir. Ela conduz ao mais- de - gozar porque mergulha suas raízes, ela, a mulher, como a flor, no gozo mesmo. Os meios do gozo são abertos pelo seguinte princípio – que ele tenha renunciado ao gozo fechado e alheio, à mãe” (Idem, p.74). Portanto, se de um lado o gozo é constituinte da psique; de outro, a sua interdição conforme é inerente a estrutura simbólica da linguagem, pois o gozo está interditado para aquele que fala. Justamente porque, a entrada do sujeito no simbólico esta condicionada a uma certa renuncia inicial ao gozo onde o sujeito renuncia o desejo de ser o falo imaginário para a mãe.
3 - Na ACF quando alguém chega em busca de tratamento e não possui o nome de um profissional, ele é recepcionado por um colega que a princípio não passa a atendê-lo e, tampouco, faz o encaminhamento seguindo uma lógica igualitária de distribuição de pacientes entre os profissionais. O colega em “trabalho de recepção”, encaminha para algum outro, sustentando este encaminhamento, através dos seus laços transferências, ou seja, fará a passagem de uma “transferência institucional” a um nome suposto, há “transferência nominal”. Possivelmente, uma lista de espera daria menos trabalho e, sobretudo, discussão. De qualquer forma, este funcionamento tem se mostrado muito interessante ao longo destes anos, em especial, pelas trocas que possibilita. Ver texto de Sonia Bley sobre “Recepção” em www.associacaoclinicafreudiana.com.br
4 - A ACF não legisla sobre os valores dos atendimentos realizados na Associação, pois entendemos que está é uma questão clínica que diz respeito ao âmbito da transferência entre analista e analisante.
5 - Neste aspecto, encontramos uma forma de trabalhar onde compreendemos que o “sujeito em análise” não é reconhecido como um paciente da instituição, é sim, um sujeito que faz a sua análise na instituição e está em atendimento com um colega reconhecido pelos demais como o responsável pela condução do caso. Diante disso, o respeito a “transferência nominal”, subverte um tanto, os riscos do suposto e sempre eminente domínio institucional. Neste sentido, uma certa subversão da própria lógica institucional, faz-se necessária para que a clínica de cada analista não seja engolfada pela burocratização e o controle da instituição.
6 - Ver site: www.associacaoclinicafreudiana.com.br
7 - Registra-se aqui um agradecimento muito especial ao belo trabalho de Cartel realizado junto a nossa colega na APPOA, a psicanalista Lucia Serrano Pereira, que muito tem nos ajudado na abertura de novas significações para o andamento dos trabalhos.
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